quem semeia homens-planta… @DNA Lisboa

quem semeia homens-planta… (2014)

instalação criada para a festa de lançamento da BUM-Galeria Impressa, no DNA Lisboa

fotos © bastardo diletante

A união entre vegetal e animal num ser embrionário metamorfoseado, cíclico, desde a concepção, o nascimento, a morte. A germinação do hipocótilo com raízes apenas aqui escritas e folhas não desenhadas, funcionam como suporte para o lápis e para a esferográfica. Ao rebento dá-se o nome de homem-planta. A cria é criação do criador de redundâncias. A nudez assexuada é controlada pela mão trémula desse criador. Os homens-planta têm deuses?

Como esboço que é, o homem-planta, ou planta-homem, vive na sombra a sua curta existência, cego, surdo e mudo. O desenvolvimento da cegueira é alimentado pela surdez do mutismo, interrompido pela escrita. Repete-se à exaustão um conceito ultrapassado cheio de enumerações vocabulares. A importância de se tornar animal quando se é vegetal. Chamam-lhe o feijão humano, prisioneiro no seu curto e ainda assim infinito ciclo de vida, dividido em três moldes espácio-temporais.

O primeiro é o tempo-espaço estático de cada quadro. Refere-se à forma individual e solitária que um desenho possui, a cada um de vários homem-planta congelados num momento, em diferentes estágios. Embora nos rectângulos esteja representado o mesmo ser, este não tem consciência de nada além de si próprio num determinado instante.

O segundo molde é em forma de mosaico, no qual o homem-planta se multiplica no plano horizontal. À semelhança da primeira forma, o indivíduo não tem consciência de nada extrínseco a si mesmo, tal como os seus alter-egos, num espaço paralelo e multidimensional. Cada quadro mantém a sua independência e a ligação é feita por seres exteriores a eles próprios.

O terceiro resulta da criação de uma sequência dos diferentes quadros, cada um prolongado por um pequeno período, iniciando-se o movimento. A dinamização do tempo torna o espaço, antes físico, virtual. Estes seres ganham a percepção deles próprios nesta dimensão. Até aqui, são formas inanimadas, sem sentido nem contexto, amargurados pela impressão inata e inconsciente de estarem incompletos.

A vida destes organismos é atormentada, presa em quadros, vivendo e morrendo, e renascendo num tempo diminuto que se repete. O seu criador é pérfido. Pretende que sejam anulados por separação, mesmo na sua dimensão mais segura, a de seres latentes num instante, contando que fragmentos-chave sejam roubados e se crie um abismo entre os semelhantes interdimensionais. Prevê-se implosão da realidade. Aspira-se que atinjam a loucura. No momento em que o homem-planta consciencializa a sua existência e se apercebe que é refém de um pequeno quadrado branco começa a fuga. Esta tentativa de abandonar o centro do quadro faz com que volte ao início, num castigo infernal. O homem-planta está fadado a querer evadir-se no segundo em que ganha consciência, ignorando que essa acção causará o seu desaparecimento e consequente germinação num ciclo interminável. A punição por querer abandonar o espaço é ficar eternamente preso nele. O homem-planta só é livre quando não tem noção dele próprio.

Que colhe quem semeia homens-planta?

Colhe ervas daninhas, pragas, doenças, parasitas, vírus e pestes…